sábado, 8 de outubro de 2011

No meu quarto existe uma janela. Através dela eu consigo ver o mundo. Um mundo estranho. Cheio de seres estranhos. São todos iguais, mas de uma maneira diferente. Da minha janela vejo um cigarro. O cigarro pertence a uma menina de cabelos pretos e olhos azuis. Ela fuma porque a mãe uma vez citou que os filhos dela nunca haviam de fumar. Ela fuma porque um desempregado que carregava uma pasta preta gritou no metro que fumar era uma das maneiras mais lentas e prazerosas de morrer. Ela fuma porque está aborrecida. Aborrecida com o namorado por fazê-la esperar. Aborrecida com a mãe por ser uma alcoólatra que afirma que fumar é feio. Aborrecida com o desempregado da pasta preta por ser velho demais para ela. Ela está aborrecida com o mundo, por tê-la feito esperar ansiosamente pelos 16, para depois mostrar-lhe que era melhor ser uma criança. Um estranho ser a menina dos cabelos pretos e olhos azuis. Estranhamente interessante. Outro ser estranho é o dono da pasta que está no lixo. O dono é um homem alto de cabelos castanhos. Com trinta e poucos anos, todos os dias sai de casa ás 7h30 e vai apanhar o metro. Sempre carregando a mesma pasta castanha e com o cabelo imaculadamente penteado para trás. Esta manhã ele finalmente trocou de pasta. Saiu com uma preta. Completamente descabelado e com a barba por fazer ele corria rua abaixo para apanhar o metro. Já eram 8h30. Fiquei contente por ele. O homem finalmente mudou de rotina. Voltou hoje mais cedo do trabalho. Gritando penso eu de alegria. Alegria por estar livre daquele trabalho. Alegria por estar livre da rotina. Livre para fumar. Para beber. E julgando pelo facto da pasta preta ser feminina, livre para se divertir. Entrou em casa atirou a pasta castanha pela janela, atirando com ela o stress e o medo de viver, e foi para o quarto sendo puxadas por mãos delicadas, donas de umas unhas vermelhas. Eu sei. Seres extremamente estranhos. Mas não são os únicos. Tem o namorado da menina dos cabelos pretos e olhos azuis, que agora está com a sua namorada. Sim a sua outra namorada. Uma menina loira de olhos castanhos. Consigo vê-los da minha janela. As suas mãos inexperientes percorrem o corpo ainda verde da menina loira dos olhos castanhos. Ele sente-se desconfortavelmente bem. E sabem por quê? Porque a dona do cigarro está a espera dele. É uma satisfação estranha a desse rapaz. Existe também o velho dono do café onde a menina comprou os cigarros. Ele é um velho triste. A vida inteira trabalhou no seu café na esperança de transformá-lo num restaurante, mas não conseguiu. E todos os dias ele fecha-o com a cara baixa, para depois olhar para o céu esperançoso por um novo dia. Mesmo sabendo que este vai ser igual ao anterior. Da janela do meu quarto vejo muitos seres estranhos. E o mais estranho penso ser a rapariga das unhas vermelhas. Ela tem cachos castanhos e olhos pretos. Ela diz ser uma artista. E todos os dias senta-se a janela do seu quarto e observa o mundo e os seres iguais, mas estranhamente diferentes que nele habitam. Ela critica o rapaz das duas namoradas, por ele e a menina loira dos olhos castanhos enganarem a menina dos cabelos pretos e olhos azuis. Ela sente pena do velho que não conseguiu realizar o seu sonho de ter um restaurante, e todo o dia trabalha num pobre café para depois ir para casa sozinha. Ela gosta do homem alto da pasta castanha. Sempre gostou dele. Ainda que platonicamente. Mas nunca o disse. Ela não podia dizê-lo. Afinal ela era uma artista que conhecia o mundo da sua janela. Sabia que o velho acabou sozinho. Sabia que a dona do cigarro esta noite havia de ficar com o coração partido. E sabia que ele era fiel à sua pasta castanha. Só não sabia que as coisas não são o que aparentam ser. Não sabia que depois da noite de ontem, o homem alto deixaria a pasta castanha no lixo, trocando-a por uma rapariga de olhos pretos, unhas vermelhas, cachos castanhos e dona de uma pasta preta. Uma rapariga que todos os dias sentava-se a janela observando um mundo que ela julgava conhecer. Ela não sabia que o velho olhava para o céu agradecendo a vida pela esposa que o esperava em casa. E que todas as noites ele e a mulher sentavam na varanda apreciando o luar e o amor que ainda existia. Ela não sabia que a menina dos cabelos pretos e olhos azuis tinha um amigo, que todas as noites levava-a a casa. E que esta noite havia confessado os seus sentimentos, saboreando assim os lábios confusos com sabor a café e a cigarro dessa menina. Ela não sabia que a dona do cigarro, deitou o que restava do maço no lixo. Porque agora já não precisava esperar. Tanta coisa que ela não sabia. Que ela não conhecia. Ela também não sabia que ela não passava do reflexo de uma artista dona de umas unhas vermelhas. Um reflexo que todas as manhãs eu observo da janela do meu quarto. [minha autoria]

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